Por: Pelo Estado por: Andréa Leonora | 22/04/2019

Desde 7 de fevereiro deste ano, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) é comandada pela agrônoma Edilene Steinwandter. Funcionária de carreira, ela foi indicada pelos próprios colegas, em um processo raro no serviço público. Edilene é formada em Agronomia pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), mestre em Zootecnia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM-RS) e especialista em Produção de Ruminantes pela Universidade Federal de Lavras (UFLA-MG).

Entrou na Epagri em 2002 como extensionista concursada, em Ponte Serrada. Em 2011, virou gerente regional em Xanxerê, e em 2015, gerente estadual de Extensão Rural. Ocupou o cargo até a posse como presidente da empresa. Para presidente da Epagri, o objetivo é trabalhar as questões humanas e sociais, com capacitação técnica e foco nas demandas da cadeia produtiva catarinense.

Em entrevista à rede de veículos da ADI-SC e da Adjori-SC, digitais e impressos, ela  conta um pouco mais de seus planos e metas à frente da empresa. Respeitada e apoiada pelos colegas e pelos setores atendidos pela empresa, ela enfrenta sem maiores dificuldades o que chama de “histórico masculino” da Epagri: “O fato de eu ter assumido é um grande avanço nessa história, porque agora tem uma mulher presidente da empresa”.

 

[PeloEstado] – A senhora assumiu a Epagri recentemente, já se acostumou os processos da presidência, quais são os objetivos e metas que deseja implementar?

Edilene Steinwandter  – Primeiro, a gente entende que o trabalho de excelência só vem com pessoas capacitadas. Então, nós precisamos constantemente buscar a capacitação de técnicos. Tendo técnicos sempre preparados e capacitados, nós vamos ofertar serviços de melhor qualidade e poderemos levar essa proposta de mudança e de implementação de boas práticas agrícolas para todos os agricultores. Ampliarmos o nosso leque com relação a famílias atendidas. Nosso objetivo sempre é maior cobertura de atendimento Estado. Ao mesmo tempo, darmos resposta através da pesquisa às demandas das cadeias produtivas. E para isso, temos que focar no que é mais importante. Quando eu digo mais importante, são as cadeias produtivas do Estado mas não significa fechar os olhos para o que é novo, que são potenciais. E, ao mesmo tempo, é ter um olhar para o que existe de novas oportunidades de mercado, de atividades, culturas, para que a gente possa fazer jus a uma das características do nosso Estado que é a diversidade. Nosso Estado é muito rico em diversidade. E fazer com que essa diversidade da produção agrícola também tenha mercado garantido, com essa qualidade de produção mais limpa, mais segura, com menos utilização de agrotóxicos. Um pouco nessa linha.

 

[PE] – A senhora é a primeira mulher a comandar a Epagri…

Edilene – A Epagri sempre teve um histórico mais masculino, pelas suas características, porque há muitos anos Agronomia, Técnico Agrícola, Veterinária, Zootecnia, as graduações, eram mais feitas por homens. Então era natural que, ao mesmo tempo em que mais homens se formavam, mais homens entravam no mercado de trabalho. A participação da mulher dentro da Epagri existiu sempre, mas num nível mais do viés social e não no viés técnico-agronômico. E consequentemente as chefias também eram mais assumidas pelos homens. Por outro lado, tem um histórico na empresa de que teve um período em que as mulheres ao se casarem saíam da empresa. Não que a empresa as obrigasse a sair, mas existia toda uma cultura que quando casava, saía. Então, o fato de eu ter assumido, vejo que é um grande avanço nessa história porque tem uma mulher presidente da empresa. São dois extremos. Quando em 2011, eu estava na gerência regional de Xanxerê, também na época também fui a primeira mulher que assumiu uma gerência regional na área técnica. E quando eu assumi a gerência estadual de extensão rural em 2015, tampouco uma mulher tinha assumido uma gerência estadual na área técnica. E agora, presidência. Ao mesmo que é uma alegria, é uma responsabilidade muito grande porque se coloca uma expectativa, pelo fato de ser mulher, pelo fato de ser funcionária da Epagri, então a expectativa dos funcionários é maior e a minha responsabilidade é pelo fato de fazer com que dê muito certo e que eu possa representar muito bem o que a empresa tem de riqueza.

 

[PE] – O governo defende uma escolha técnica para os cargos, com valorização interna. A senhora deve replicar esse modelo para a empresa?

Edilene – Eu sempre comento que eu nunca tive uma circulação no mundo político por opção de vida mesmo. Até então, na época, quando o governo me convidou, eu falei ‘olha, eu sempre trabalhei bastante, mas eu nunca me oportunizei ter uma vida política’. Então, por isso, me chamou muito a atenção e foi uma surpresa muito grande o fato de eu ter sido convidada para ser presidente da empresa. De fato, a minha curiosidade foi de saber como é que meu nome tinha chegado a indicação. E aí acabei sabendo que foi por sugestão dos próprios funcionários da empresa. De fato, aquilo que o governo colocou como campanha nós vemos que no dia a dia está sendo efetivado. Não só na Epagri, mas em vários outros setores que funcionários conduzidos à presidência, coisa que dificilmente nós víamos, essa valorização do quadro de funcionários, do técnico, está muito presente.

 

[PE] – A senhora falou em focar o trabalho. O que deve ser focado e o que pode ficar de lado?

Edilene – Qual o grande foco da Epagri? É pesquisa e extensão rural, nosso principal caminho é trabalhar a questão humano e social, as pessoas, a qualidade de vida, trabalhar as questões ambientais, de solo, de água, de preservação e educação ambiental e trabalhar as principais cadeias produtivas, pecuária, agricultura e pesca, olericultura, fruticultura, gestão de negócios e mercados, grãos, ambiental e capital humano. Não dá só para produzir, mas é preciso pensar formas de comercialização também.  Esses são os grandes focos.

 

[PE] – Como isso acontece na prática?

Edilene – Toda vez que é pedido para mim quais são as novas linhas de trabalho, eu tenho algumas ressalvas para fazer. A Epagri é uma empresa que está muito bem consolidada e mudança de governo não vai mudar os rumos da Epagri. Por que? Porque todo esse planejamento é feito com a comunidade, com a sociedade, com os agricultores. Nós não assumimos a presidência no sentido de mudar o rumo, e sim de aprimorar o que tem sido feito e avançar naquilo que pode ser avançado, mas as linhas de trabalho que se dá em cada um dos 295 municípios é construído no município, junto com os agricultores e as lideranças. Nós respeitamos muito essa construção coletiva e são eles que nos dão o rumo, junto claro com diretrizes estaduais. Nós estamos presentes em 292 municípios fisicamente com escritórios, mas todos os municípios são atendidos. Nós temos uma capilaridade muito grande. A presença no dia a dia do agricultor é constante. Nós estamos numa empresa em menor número de funcionários. Nós já chegamos a ter 2,3 mil funcionários, hoje nós temos 1,7 mil. São 600 funcionários a menos. O que nós não perdemos em abrangência de trabalho? A gente busca fazer ações coletivas, dias de campo, seminários, reuniões, para atender um maior número de pessoas.

 

[PE] – O déficit do Estado afetou a empresa? Tem recursos para atender todas as áreas?

Edilene – Nós temos a entrada de várias fontes. O governo do Estado nos paga a folha de pagamento, basicamente. E o resto do custeio nós geramos, a própria empresa. Através de contrato com prefeituras, crédito, de royalties de materiais desenvolvidos pela pesquisa, e nós temos algumas vendas de serviços também, como análise de solos. Baseado no orçamento que vem do Estado e naquilo em que nós já temos de previsão de entrada durante o ano, nós podemos afirmar que nós conseguimos sim executar todas as ações planejadas. Não é um ano de investimentos. Mas é um ano que podemos sim garantir que teremos recursos financeiros para todo custeio daquilo que foi planejado.

 

[PE] – Os cortes federais em pesquisa geraram algum impacto na Epagri?

Edilene – Nesse ano, nós já garantimos o recurso total para pesquisa através do governo do Estado porque há uma lei estadual que exige que 2% do orçamento é para pesquisa, que vai para a Fapesc. Desse valor que a Fapesc recebe, a Epagri já se credenciou para aquilo que é necessário para conduzir as nossas pesquisas. No ano 2019, nós não teremos nenhum corte.

 

[PE] – Como está a proposta de parceria com o BIRD para manter o SC Rural?

Edilene – O governo do Estado através da Secretaria de Estado da Agricultura já está em negociação com o BIRD e nós fazemos parte desse grupo de trabalho, onde está se trabalhando uma proposta de um novo projeto. Mas ainda é um caminho bem inicial, é uma proposta. Estamos nas primeiras conversas, ainda sem previsão.

 

 

Por Murici Balbinot/Adjori-SC

Foto: Aires Carmem Mariga

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